Data de afundamento 04/02/2005
Localização Nas proximidades das Ilhas Maricás, em Niterói-RJ
Coordenadas S 23º05,718' / W 042º59,756'
Profundidade (m) 39 - 52
Motivo Naufragou durante o reboque
Estado Inteiro
Carga Vazio
Tipo Contratorpedeiro ( Destroyer )
Nacionalidade Americana
Dimensões (m) 126.33m / 13.47m / 7.90 m
EstaleiroAvondale Shipyards, New Orleans - Louisiana
Fabricação 1964
  

Contratorpedeiro Paraíba

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CT Paraíba - D 28

Classe Garcia

 

"Lobo do Mar"

H i s t ó ri a

1 - US Navy

Construído pelo estaleiro Avondale Shipyards, em New Orleans – Louisiana, O Contratorpedeiro Paraíba - D 28 (ou CT Paraíba) iniciou sua distinta carreira na marinha americana (US Navy), onde foi comissionado como DE - 1045 (Destroyer Escort - 1045) em 7 de dezembro de 1965, na cidade de Charleston, Carolina do Sul – USA. Os "Destroyer Escorts" foram concebidos como uma versão econômica dos Destroyers tradicionais, dotados de armamentos e sistemas mais modernos. Têm como característica marcante, um avantajado domo de sonar a vante, exatamente na proa. Quinto navio produzido na classe "Garcia" de Destroyers Escorts, o CT Paraíba foi originalmente batizado USS Davidson, em homenagem ao Vice-Almirante Lyal A. Davidson, oficial de destaque durante a 2ª Guerra Mundial no suporte de artilharia às tropas aliadas no norte da África e em operações navais no Mediterrâneo. Designado para a esquadra do pacífico, o USS Davidson teve como porto de inscrição Pearl Harbour – Havaí, aonde chegou em 13 de abril de 1966, engajando-se na 5ª Flotilha de Destroyers, passando então, com sua tripulação, por intenso treinamento para desempenho das tarefas que lhe seriam destinadas.

No período de 1967 a 1975, o USS Davidson foi empregado como nau de suporte de fogo de artilharia naval aos fuzileiros americanos durante o conflito do Vietnam, no sudeste asiático, inclusive entrando em ação no famoso delta do rio Mekong. Destacou-se, também, na proteção e escolta de comboios navais e de vasos maiores da esquadra, sua principal tarefa, além do combate a submarinos, sua especialidade. Em 1974, foi o primeiro Destroyer Escort baseado no Havaí a experimentar a incorporação de um sistema de detecção por helicóptero do tipo LAMPS (Light Airborne Multipurpose System), fato que, aliado a seu único eixo propulsor, resultou em sua reclassificação para Fragata Rápida FF-1045 (FF de Fast Frigate).

Os expressivos resultados alcançados pela excelência dos artilheiros do USS Davidson renderam-lhe diversos prêmios, comendas e medalhas, tais como o "Experty Gunnery Award" ganho por cinco vezes consecutivas, "Battle Efficiency Award" ganho por três vezes, "Combat Action Ribbon", "Meritorious Unit Commendation" e a "National Defense Service Medal", entre outros. Sua extrema eficiência, ao longo da carreira operacional na US Navy, renderam-lhe o apelido "The biggest Little Destroyer in WESTPAC" (Westpac=western pacific).

O USS Davidson deu baixa com honras do serviço em 8 de dezembro de 1988, encerrando uma vitoriosa carreira de 23 anos na US Navy.

2 – Marinha do Brasil

Em 15 de abril de 1989, o Governo Norte-Americano transferiu por leasing à Marinha Brasileira, quatro Fragatas da classe Garcia, dentre elas o USS Davidson.

Usando preferencialmente a designação "Contratorpedeiro" (CT), em lugar de "Destroyer", a Marinha do Brasil rebatizou o USS Davidson como "Paraíba". Este era o quinto navio a ostentar esse nome na Marinha do Brasil, homenagem ao estado homônimo do nordeste brasileiro. Foi, então, incorporado a Marinha do Brasil em cerimônia realizada na Base Naval de San Diego, Califórnia, em 25 de julho de 1989. E foi, também numa área de exercícios de San Diego, que o CT Paraíba realizou seu primeiro lançamento real com sucesso, de ASROC (Anti-Submarine Rocket), contra um drone submarino, já incorporado a Marinha do Brasil.

Chegou ao Rio de Janeiro, porto onde passou ter sua inscrição, em 13 de dezembro de 1989.

Participou, entre 1990 e 2001, de diversos exercícios em conjunto com navios da OTAN e outros.

Em 24 de janeiro 2002, a Marinha do Brasil adquiriu definitivamente o CT Paraíba do Governo dos EUA, recebendo o certificado de transferência em fevereiro de 2002.

Deu baixa do serviço em 26 de julho de 2002, sendo submetido à Mostra de Desarmamento em cerimônia conjunta com a do CT Paraná, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. A partir dessa data, foi colocado na reserva, permanecendo preservado.

3 - O Naufrágio

Em novembro de 2004, o CT Paraíba foi arrematado como sucata, em leilão, juntamente com seu irmão gêmeo, o CT Paraná, pela empresa Liberiana Arusha Shipping Limited e, em 4 de fevereiro de 2005, quando eram rebocados para desmontagem em Alang – Índia (um conhecido desmonte de navios), o CT Paraíba, como que inconformado com seu perverso destino, fez água e afundou nas proximidades da Baía de Guanabara, pouco após sua partida, elegendo as águas cariocas como sua última morada.

Hoje, o navio encontra-se inclinado num ângulo de aproximadamente 45º sobre bombordo, na profundidade de 52 m, sendo sua antena de radar a menor profundidade do naufrágio, a 39 m. Encontra-se aproado para o rumo 150º, aproximadamente. Está integro, do ponto de vista estrutural, no fundo, com exceção da ponta extrema de sua proa, que se encontra um pouco destruída e torta a boreste, indicando ter sido ali o impacto com o fundo. Ainda conta com as antenas de radar, seus 2 canhões e lançador de mísseis. A âncora de proa foi lançada, ao que parece, quando o navio começou a fazer água. A ponte de comando teve seus aparelhos retirados, provavelmente antes do leilão. Seu casco ainda limpo confirma ser muito recente o naufrágio.

3 – Mergulhando num Destroyer

Chegamos à posição do CT Paraíba casualmente, enquanto fazíamos uma varredura de uma enorme área cujo histórico de afundamentos prometia boa caçada. Meses de olho na sonda, acabaram por surtir efeito: de repente uma enorme mancha escura se destacou. Havíamos achado algo de grandes proporções e, dado o tamanho da "coisa", começamos a imaginar o que poderia ser. Lembrei-me então de uma história não muito antiga, de manobras militares nas quais haviam sido afundados navios descomissionados da Marinha. Passei então a alimentar o sonho de que o mais comentado desses naufrágios, um contratorpedeiro da classe "Fletcher", pudesse ser a nossa mancha.

Sábado 19/02/2005. Ao comentar sobre o possível achado com meu dupla e companheiro da equipe wreckfinder, Lélis Borges do Couto Jr., obtive a reação eufórica de uma animação já esperada. Imediatamente tomamos o rumo da mancha, e saímos em busca daquele que era um sonho comum de muito tempo: um ponto para a prática de mergulho técnico no Rio de Janeiro.

Graças às dimensões da nossa mancha, rapidamente estávamos sobre ela, e logo tínhamos a sonda acusando algo além de areia no fundo. Garatéia unhada no naufrágio caímos com o compromisso de apenas verificar do que se tratava. A sonda indicava o fundo em torno de 52 metros. A água era azul e tínhamos a temperatura de 26ºC na superfície. Segundos depois, o azul foi dando lugar a um esverdeado escuro, e a temperatura reduziu-se a 15ºC. Me lembrei das condições de mergulho no Tunamar (Arraial do Cabo – RJ), e já me preparava para a escuridão total, quando nos deparamos com o casco, cerca de 8 metros à frente. A visibilidade era muito boa, assim como a claridade àquela profundidade. Chegando a garatéia, verifiquei se estava segura, embora a correnteza fosse praticamente nula. Logo divisei à minha esquerda, um tubo familiar: era o cano do canhão de 5 polegadas de uma das duas torres MK-30. Decidimos, rapidamente, fazer uma pequena incursão, limitando nosso tempo de fundo em 10 minutos, por sobre o bordo mais raso (boreste). Logo percebi que aquele barco tinha muito pouco tempo de fundo, e não podia ser um contratorpedeiro da classe "Fletcher", como havia sonhado. Desta vez a realidade suplantou em muito o devaneio: aquele era um naufrágio novo! Mas como? Que navio era aquele? Nenhuma notícia havia sido veiculada dando conta de um naufrágio dessas proporções! Com a visão do heliporto à popa, veio a confirmação de que não era um "Fletcher". Os Destroyers da classe "Fletcher" não tinham heliporto. Este era um Destroyer da classe "Garcia" pensei. Descendo pela popa, pudemos ler com alguma dificuldade, o relevo dos dizeres "USS Davidson", que curiosamente ainda estava sob a tinta cinzenta. De volta a garatéia, cabo acima, nossa descompressão se deu entre gritos, urros e vibração total pelo mergulho e pelo achado. O segundo mergulho, no mesmo dia, fizemos na direção oposta à do primeiro, com intenção de alcançar a proa, o que não foi possível, diante da limitação imposta pelo tempo de fundo planejado.

Mas pudemos confirmar a condição de "intactas" de sua superestrutura e antenas de radar.

De posse da informação em relevo na popa do achado, "USS Davidson", foi fácil chegar à última identidade assumida por nosso navio, pois a antiga tripulação do USS Davidson mantém um excelente site na Internet, através do qual chegamos, entre outras, à incrível informação de que a Marinha Brasileira já havia publicado um Aviso aos Navegantes, dando conta do possível perigo a navegação. Graças às informações obtidas de valorosos sites da Internet (inclusive brasileiros) temos a certeza de divulgar em primeira mão a história completa do navio. Diga-se de passagem, um naufrágio moderno não poderia ter outra fonte principal de pesquisa que não fosse a Internet, embora isso possa contrariar o entendimento de pretensos puristas, que não aceitam a modernidade. Aliás, cumpre-nos ressaltar a decepção com que recebemos a reação de alguns supostos "entendidos" no assunto "naufrágio", que em demonstração de ciumeira explícita, chegaram a desejar ver o navio explodido pela Marinha.

O terceiro mergulho se deu em 23/03/2005. Havíamos preparado um perfil de 40 minutos de fundo, mas restringimos a 30 minutos, em função dos inúmeros atrasos ocorridos na operação, fazendo com que chegássemos ao ponto de mergulho no meio da tarde. Desta vez tivemos a garatéia unhada a meia nau. Tendo como prioridade mergulhar na proa do navio, pudemos confirmar não só a presença da torre MK-30 de proa e seu respectivo canhão, mas também, para nossa surpresa, em se tratando de navio destinado ao desmonte, a presença do lançador de mísseis óctuplo, localizado logo à frente da ponte de comando. Pudemos ainda, colher as primeiras imagens-sub do navio.

Participaram do terceiro mergulho no CT Paraíba, além de mim: Esmeraldino "Dino" Aragão (Dive-Rite); Lélis Jr. (Dive-Rite; João "Johnny" Paulo Pavani Franco (Dive-Rite); Paulo Dias (CIMA-RJ); Gílson Oliveira (CIMA-RJ) e Clécio Mayrink (Brasil Mergulho).

Em virtude da importância do achado para a comunidade de mergulho, principalmente a de mergulhadores técnicos, e por compreender a responsabilidade envolvida na divulgação e posterior operação comercial do novo ponto de mergulho, o grupo WRECKFINDER patrocinou uma apresentação do naufrágio para a qual foram convidados os principais certificadores, operadores, escolas de mergulho e figuras ilustres da atividade atuantes à época no Rio de Janeiro, antes da divulgação pública do naufrágio, com o objetivo de cientificar a comunidade de mergulho sobre os cuidados que o mergulho exige e conscientizar sobre a necessidade de preservar o naufrágio contra a pilhagem.

A despeito da água nem sempre boa em visibilidade, e muitas vezes fria, a localização do CT Paraíba não poderia ser melhor, para fins de mergulho, pois se encontra em águas não influenciáveis pelo movimento das turvas águas da Baía de Guanabara, além de sua profundidade torná-lo um alvo perfeito para o mergulho técnico.

Hoje, o mergulho no CT Paraíba é uma realidade, com saídas freqüentes das principais operadoras cariocas rumo ao ponto. Como prevíamos, o naufrágio foi abraçado pela comunidade e se transformou no desejo de todo tech-diver, e também daqueles que ainda não o são, mas se preparam para conhecer o naufrágio dentro de condições de segurança. Como imaginamos, ele se transformou numa "coqueluche" e num "must have" dos "Log-Books" dos mergulhadores técnicos de todo o Brasil, destino, diga-se de passagem, bem mais interessante que o pretendido pelo seu arrematante.

(texto atualizado em 13/02/2006 – 1º aniversário do achado do CT Paraíba)

Paulo M. Tessarollo

PDIC Instructor #75033

Technical Diver IANTD #61657

Advanced Trimix Diver TDI #104561

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