CT
Paraíba - D 28
Classe
Garcia
"Lobo
do Mar"
H i s t ó ri a
1 - US Navy
Construído pelo estaleiro Avondale
Shipyards, em New Orleans – Louisiana, O Contratorpedeiro
Paraíba - D 28 (ou CT Paraíba) iniciou sua
distinta carreira na marinha americana (US Navy), onde
foi comissionado como DE
- 1045 (Destroyer Escort - 1045) em 7 de dezembro de
1965, na cidade de Charleston, Carolina do Sul – USA.
Os "Destroyer Escorts" foram concebidos como
uma versão econômica dos Destroyers tradicionais,
dotados de armamentos e sistemas mais modernos. Têm
como característica marcante, um avantajado domo de
sonar a vante, exatamente na proa. Quinto navio
produzido na classe "Garcia" de Destroyers
Escorts, o CT Paraíba foi originalmente batizado
USS Davidson, em homenagem ao Vice-Almirante Lyal
A. Davidson, oficial de destaque durante a 2ª Guerra
Mundial no suporte de artilharia às tropas aliadas no
norte da África e em operações navais no
Mediterrâneo. Designado para a esquadra do pacífico, o
USS Davidson teve como porto de inscrição Pearl
Harbour – Havaí, aonde chegou em 13 de abril de 1966,
engajando-se na 5ª Flotilha de Destroyers, passando
então, com sua tripulação, por intenso treinamento
para desempenho das tarefas que lhe seriam destinadas.
No período de 1967 a 1975, o USS
Davidson foi empregado como nau de suporte de fogo
de artilharia naval aos fuzileiros americanos durante o
conflito do Vietnam, no sudeste asiático, inclusive
entrando em ação no famoso delta do rio Mekong.
Destacou-se, também, na proteção e escolta de
comboios navais e de vasos maiores da esquadra, sua
principal tarefa, além do combate a submarinos, sua
especialidade. Em 1974, foi o primeiro Destroyer Escort
baseado no Havaí a experimentar a incorporação de um
sistema de detecção por helicóptero do tipo LAMPS (Light
Airborne Multipurpose System), fato que, aliado a
seu único eixo propulsor, resultou em sua
reclassificação para Fragata Rápida FF-1045 (FF de
Fast Frigate).
Os expressivos resultados alcançados
pela excelência dos artilheiros do USS Davidson
renderam-lhe diversos prêmios, comendas e medalhas,
tais como o "Experty Gunnery Award" ganho por
cinco vezes consecutivas, "Battle Efficiency
Award" ganho por três vezes, "Combat Action
Ribbon", "Meritorious Unit Commendation"
e a "National Defense Service Medal", entre
outros. Sua extrema eficiência, ao longo da carreira
operacional na US Navy, renderam-lhe o apelido "The
biggest Little Destroyer in WESTPAC"
(Westpac=western pacific).
O USS Davidson deu baixa com
honras do serviço em 8 de dezembro de 1988, encerrando
uma vitoriosa carreira de 23 anos na US Navy.
2 – Marinha do Brasil
Em 15 de abril de 1989, o Governo
Norte-Americano transferiu por leasing à Marinha
Brasileira, quatro Fragatas da classe Garcia, dentre
elas o USS Davidson.
Usando preferencialmente a
designação "Contratorpedeiro" (CT), em lugar
de "Destroyer", a Marinha do Brasil rebatizou
o USS Davidson como "Paraíba".
Este era o quinto navio a ostentar esse nome na Marinha
do Brasil, homenagem ao estado homônimo do nordeste
brasileiro. Foi, então, incorporado a Marinha do Brasil
em cerimônia realizada na Base Naval de San Diego,
Califórnia, em 25 de julho de 1989. E foi, também numa
área de exercícios de San Diego, que o CT Paraíba
realizou seu primeiro lançamento real com sucesso, de
ASROC (Anti-Submarine Rocket), contra um drone
submarino, já incorporado a Marinha do Brasil.
Chegou ao Rio de Janeiro, porto onde
passou ter sua inscrição, em 13 de dezembro de 1989.
Participou, entre 1990 e 2001, de
diversos exercícios em conjunto com navios da OTAN e
outros.
Em 24 de janeiro 2002, a Marinha do
Brasil adquiriu definitivamente o CT Paraíba do
Governo dos EUA, recebendo o certificado de
transferência em fevereiro de 2002.
Deu baixa do serviço em 26 de julho
de 2002, sendo submetido à Mostra de Desarmamento em
cerimônia conjunta com a do CT Paraná, no Arsenal de
Marinha do Rio de Janeiro. A partir dessa data, foi
colocado na reserva, permanecendo preservado.
3 - O Naufrágio
Em novembro de 2004, o CT Paraíba
foi arrematado como sucata, em leilão, juntamente com
seu irmão gêmeo, o CT Paraná, pela empresa Liberiana
Arusha Shipping Limited e, em 4 de fevereiro de 2005,
quando eram rebocados para desmontagem em Alang –
Índia (um conhecido desmonte de navios), o CT
Paraíba, como que inconformado com seu perverso
destino, fez água e afundou nas proximidades da Baía
de Guanabara, pouco após sua partida, elegendo as
águas cariocas como sua última morada.
Hoje, o navio encontra-se inclinado
num ângulo de aproximadamente 45º sobre bombordo, na
profundidade de 52 m, sendo sua antena de radar a menor
profundidade do naufrágio, a 39 m. Encontra-se aproado
para o rumo 150º, aproximadamente. Está integro, do
ponto de vista estrutural, no fundo, com exceção da
ponta extrema de sua proa, que se encontra um pouco
destruída e torta a boreste, indicando ter sido ali o
impacto com o fundo. Ainda conta com as antenas de
radar, seus 2 canhões e lançador de mísseis. A
âncora de proa foi lançada, ao que parece, quando o
navio começou a fazer água. A ponte de comando teve
seus aparelhos retirados, provavelmente antes do
leilão. Seu casco ainda limpo confirma ser muito
recente o naufrágio.
3 – Mergulhando num Destroyer
Chegamos à posição do CT
Paraíba casualmente, enquanto fazíamos uma
varredura de uma enorme área cujo histórico de
afundamentos prometia boa caçada. Meses de olho na
sonda, acabaram por surtir efeito: de repente uma enorme
mancha escura se destacou. Havíamos achado algo de
grandes proporções e, dado o tamanho da
"coisa", começamos a imaginar o que poderia
ser. Lembrei-me então de uma história não muito
antiga, de manobras militares nas quais haviam sido
afundados navios descomissionados da Marinha. Passei
então a alimentar o sonho de que o mais comentado
desses naufrágios, um contratorpedeiro da classe
"Fletcher", pudesse ser a nossa mancha.
Sábado 19/02/2005. Ao comentar sobre
o possível achado com meu dupla e companheiro da equipe
wreckfinder, Lélis Borges do Couto Jr., obtive a
reação eufórica de uma animação já esperada.
Imediatamente tomamos o rumo da mancha, e saímos em
busca daquele que era um sonho comum de muito tempo: um
ponto para a prática de mergulho técnico no Rio de
Janeiro.
Graças às dimensões da nossa
mancha, rapidamente estávamos sobre ela, e logo
tínhamos a sonda acusando algo além de areia no fundo.
Garatéia unhada no naufrágio caímos com o compromisso
de apenas verificar do que se tratava. A sonda indicava
o fundo em torno de 52 metros. A água era azul e
tínhamos a temperatura de 26ºC na superfície.
Segundos depois, o azul foi dando lugar a um esverdeado
escuro, e a temperatura reduziu-se a 15ºC. Me lembrei
das condições de mergulho no Tunamar (Arraial do Cabo
– RJ), e já me preparava para a escuridão total,
quando nos deparamos com o casco, cerca de 8 metros à
frente. A visibilidade era muito boa, assim como a
claridade àquela profundidade. Chegando a garatéia,
verifiquei se estava segura, embora a correnteza fosse
praticamente nula. Logo divisei à minha esquerda, um
tubo familiar: era o cano do canhão de 5 polegadas de
uma das duas torres MK-30. Decidimos, rapidamente, fazer
uma pequena incursão, limitando nosso tempo de fundo em
10 minutos, por sobre o bordo mais raso (boreste). Logo
percebi que aquele barco tinha muito pouco tempo de
fundo, e não podia ser um contratorpedeiro da classe
"Fletcher", como havia sonhado. Desta vez a
realidade suplantou em muito o devaneio: aquele era um
naufrágio novo! Mas como? Que navio era aquele? Nenhuma
notícia havia sido veiculada dando conta de um
naufrágio dessas proporções! Com a visão do
heliporto à popa, veio a confirmação de que não era
um "Fletcher". Os Destroyers da classe
"Fletcher" não tinham heliporto. Este era um
Destroyer da classe "Garcia" pensei. Descendo
pela popa, pudemos ler com alguma dificuldade, o relevo
dos dizeres "USS Davidson", que curiosamente
ainda estava sob a tinta cinzenta. De volta a garatéia,
cabo acima, nossa descompressão se deu entre gritos,
urros e vibração total pelo mergulho e pelo achado. O
segundo mergulho, no mesmo dia, fizemos na direção
oposta à do primeiro, com intenção de alcançar a
proa, o que não foi possível, diante da limitação
imposta pelo tempo de fundo planejado.
Mas pudemos confirmar a condição de
"intactas" de sua superestrutura e antenas de
radar.
De posse da informação em relevo na
popa do achado, "USS Davidson", foi
fácil chegar à última identidade assumida por nosso
navio, pois a antiga tripulação do USS Davidson
mantém um excelente site na Internet, através do qual
chegamos, entre outras, à incrível informação de que
a Marinha Brasileira já havia publicado um Aviso aos
Navegantes, dando conta do possível perigo a
navegação. Graças às informações obtidas de
valorosos sites da Internet (inclusive brasileiros)
temos a certeza de divulgar em primeira mão a história
completa do navio. Diga-se de passagem, um naufrágio
moderno não poderia ter outra fonte principal de
pesquisa que não fosse a Internet, embora isso possa
contrariar o entendimento de pretensos puristas, que
não aceitam a modernidade. Aliás, cumpre-nos ressaltar
a decepção com que recebemos a reação de alguns
supostos "entendidos" no assunto
"naufrágio", que em demonstração de
ciumeira explícita, chegaram a desejar ver o navio
explodido pela Marinha.
O terceiro mergulho se deu em
23/03/2005. Havíamos preparado um perfil de 40 minutos
de fundo, mas restringimos a 30 minutos, em função dos
inúmeros atrasos ocorridos na operação, fazendo com
que chegássemos ao ponto de mergulho no meio da tarde.
Desta vez tivemos a garatéia unhada a meia nau. Tendo
como prioridade mergulhar na proa do navio, pudemos
confirmar não só a presença da torre MK-30 de proa e
seu respectivo canhão, mas também, para nossa
surpresa, em se tratando de navio destinado ao desmonte,
a presença do lançador de mísseis óctuplo,
localizado logo à frente da ponte de comando. Pudemos
ainda, colher as primeiras imagens-sub do navio.
Participaram do terceiro mergulho no CT
Paraíba, além de mim: Esmeraldino "Dino"
Aragão (Dive-Rite);
Lélis Jr. (Dive-Rite;
João "Johnny" Paulo Pavani Franco (Dive-Rite);
Paulo Dias (CIMA-RJ); Gílson Oliveira (CIMA-RJ) e
Clécio Mayrink (Brasil
Mergulho).
Em virtude da importância do achado
para a comunidade de mergulho, principalmente a de
mergulhadores técnicos, e por compreender a
responsabilidade envolvida na divulgação e posterior
operação comercial do novo ponto de mergulho, o grupo WRECKFINDER
patrocinou uma apresentação do naufrágio para a qual
foram convidados os principais certificadores,
operadores, escolas de mergulho e figuras ilustres da
atividade atuantes à época no Rio de Janeiro, antes da
divulgação pública do naufrágio, com o objetivo de
cientificar a comunidade de mergulho sobre os cuidados
que o mergulho exige e conscientizar sobre a necessidade
de preservar o naufrágio contra a pilhagem.
A despeito da água nem sempre boa em
visibilidade, e muitas vezes fria, a localização do CT
Paraíba não poderia ser melhor, para fins de
mergulho, pois se encontra em águas não
influenciáveis pelo movimento das turvas águas da
Baía de Guanabara, além de sua profundidade torná-lo
um alvo perfeito para o mergulho técnico.
Hoje, o mergulho no CT Paraíba
é uma realidade, com saídas freqüentes das principais
operadoras cariocas rumo ao ponto. Como prevíamos, o
naufrágio foi abraçado pela comunidade e se
transformou no desejo de todo tech-diver, e também
daqueles que ainda não o são, mas se preparam para
conhecer o naufrágio dentro de condições de
segurança. Como imaginamos, ele se transformou numa
"coqueluche" e num "must have" dos
"Log-Books" dos mergulhadores técnicos de
todo o Brasil, destino, diga-se de passagem, bem mais
interessante que o pretendido pelo seu arrematante.
(texto atualizado em 13/02/2006 –
1º aniversário do achado do CT Paraíba)
Paulo M. Tessarollo
PDIC Instructor #75033
Technical Diver IANTD #61657
Advanced Trimix Diver TDI #104561 |